mllemonique


Escritoras Suicidas - Edição 7

Continho do blog de Mlle Monique por lá:

 

http://www.escritorassuicidas.com.br/edicao7_5.htm#monicaoliveira7

 

Beijocas.

 



Escrito por Mlle Monique às 16h09
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Cruzadas

Ele chegou e se foi com a luz da lua nos cabelos. Depois choveu, mas o cheiro ficou. Não tomei banho porque o cheiro dava tesão e então eu gozava de novo. Melhor ter partido, no entanto. Bom lembrá-lo uivando, um boi no abate, eu te suplico. A fantasia dá de dez a zero na realidade.

Dormi muito e acordei faminta. Fumei um beque para me sentir ainda mais esfomeada e só depois, ao matar a fome, poder ficar completamente feliz a ponto de explodir. Felicidade a gente provoca. Ela custa pouco. Quando é cara, não é de boa qualidade.

Decidi por uma gororoba na esquina. Gostei de acordar, sair por aí, minissaia e sem calcinha, rabo-de-cavalo loiro, tão livre! Tão bom ser mulher! Sair reparando na arquitetura brega e modernosa dos novos prédios, nos paralelepípedos, nos sapatos, no pichado do muro e nas coisas que ninguém repara.

Sentei-me ajeitando a toalha xadrez puida. Suco de melão, cruzo a direita, por favor, cara de vontade de comer. Cruzo a esquerda. Um beirute. Há uns cinco homens no boteco. Barrigudos, desolados. E capricha, que eu tô morrendo de fome.

Todos olhavam. Corei. Veio o suco, o prato, que vergonha, comi de cabeça baixa. Devagar, como se ritual, saboreando o tempero barato e picante. Pobre anoréxicas, quanta infelicidade. Todos olhavam. Aí lembrei daquele filme da Sharon Stone. Os homens são uns bobalhões. He he...

Tchau, obrigada, pode ficar com o troco. Antes de ir, porém, lembrei novamente do filme. Mais uma vez corei. E cruzei de novo as pernas, desta vez lentamente, levantando um pouco mais entre o vão. A Sharon Stone dos pobres.

Ouvi algumas obcenidades e saí, empinando os peitos, tão estranha é a vida sobre a Terra.



Escrito por Mlle Monique às 17h29
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Nem tão livres

Adoro o verão brasileiro!

 

 

Todo mundo anda pelado e as garotas ficam deliciosas com peças minúsculas e decotes. Hoje coloquei um biquíni amarelo tipo cortininha com lacinhos nas laterais. E fiz o que tinha que fazer.

 

Só não compreendo porque as brasileiras vestem-se de maneira tão livre e comportam-se como beatas. Vai entender

 

Eu desisti de tentar. Prefiro aproveitar estes dias quentes quando a libido rola solta e fazer algumas das melhores coisas da vida. Tomar uma breja gelada em uma mesa de boteco sentindo o vento na nuca. E encarnar na Mônica, que faz tempo que não encarno.

 

A noite vai ser boa e de tudo vai rolar. Beijinhos para todos os meus fãs!

 



Escrito por Mlle Monique às 17h16
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Entrevista com Mlle Monique Parte II

A Mônica reclama das suas peripécias ou pede para participar junto?

 

Participa, sim. Leva namorados, capricha nas posições.

 

 

Já rolou de algum vizinho querer te visitar?

 

As propostas do outro lado da janela foram vááárias! (risos). Mas gosto de fantasiar com quem está assistindo. E deixo a vida real para as mulheres, as namoradas.

 

O que você já fez para atiçar um voyeur?

 

Qualquer coisa interessante que eu esteja fazendo (e sempre faço coisas muito interessantes), com partilho com o mundo. E isso inclui sexo, muitas vezes. Dá um tesão enorme.

 

E a atração pelos pés?

 

Os pés femininos sempre exerceram um fascínio nos homens. O que eles pensam eu não sei. Aquele primeiro vizinho era pedólatra doente, tadinho. Descobri por acaso, calçando sandálias de tirinhas. Ele enlouquecia! E a partir daí sempre calçava sandálias perto da janela.

 

O que mais te dá prazer em um lance voyeur?

 

A maneira como os homens ficam indefesos diante de um corpo feminino é muito excitante. Essa é a melhor arma da mulher. E nem estou falando em ir para a cama, mas saber...Exibir. Fechar um bom negócio por causa da fenda de uma saia que nem chegou até o joelho: isso é a glória.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Mlle Monique às 15h45
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A Janela Indiscreta de Monique

(Entrevista concedida em outubro de 2002 para a Revista Sexy. Por Edgard Reymann)

 

Era uma vez Mônica, que virou Monique. Não foi mudança de sexo, mas de atitude. Monique é uma femme fatale que “tomou” o corpo de Mônica depois que esta serviu como objeto do desejo do vizinho indiscreto. Monique mudou a vida de Mônica. E a do vizinho também. Para sempre.

 

Quando você tomou o corpo de Mônica?

Quando ela descobriu seu talento para o exibicionismo, foi muito fácil convencê-la a me deixar entrar em cena. Não parei mais.

 

Foi uma experiência traumática, ou ela (a Mônica) viu que era um bom negócio?

Ela sempre acha que fez um bom negócio. Todo mundo é exibicionista e voyeur, em maior ou menor grau. Ou você observa, ou é observado. Ou ambos.

 

O que te levou a vir para o Brasil?

 

A Mônica veio morar em um apê rodeado de prédios. Não existia cortina na janela, que pega toda a sala...Aí apareceu o primeiro de uma série de vizinhos...

 

 

Como alimentou a curiosidade do vizinho?

 

A Mônica estava em uma “celebração” muito particular, solitária. Quando notou que era admirada, saiu, deixando-o a ver navios. Mas aí eu assumi, assim como quem não quer nada, e dali a pouco lá estávamos, nós duas (...). Aproveitei a oportunidade e a fiz curtir cada segundo. A curiosidade daquele homem só aumentou, o que fez com que ele voltasse a me espiar. A essa altura já era eu, Monique, todos os dias.

 

 

 

 

 



Escrito por Mlle Monique às 15h44
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Quando tudo começou


A surpresa e o prazer em reconhecer-se paisagem de olhos distantes

Incrível como descobrimos alguns talentos ao longo da vida. Tem gente que descobre talento com sessenta, setenta anos. Alguns passam a vida sem descobrir, e aí é meio triste, né? Talento para administrar, cozinhar, entender, mexer em chuveiro, em repimboca da parafuseta, para representar, ganhar dinheiro, talento para foder com a vida dos outros. O meu, esse de me exibir e observar (mais de me exibir) descobri quando vim morar aqui, de frente para uma movimentada avenida nesta capital.
 
Durante muitos anos minhas janelas deram para os fundos de uma área escura e um pouco triste, o que, acho, fez com que saboreasse ainda mais a vista urbana da qual me sirvo hoje. Moro em um apartamento cercado de prédios, e isto me faz ficar completamente atenta aos meus queridos vizinhos e vizinhas.

O começo foi bem engraçado: tive de viver um pouco sem os meus móveis, apenas um colchão na sala onde deitava e de onde dá pra se ver tudo do bloco de frente. Até aí tudo bem. Tomava alguns cuidados para não ser observada, como apagar todas as luzes ou estar sempre vestida. Isso, pensava, até a mudança chegar e comprar uma cortina.

Numa noite preguiçosa em março de 2001 resolvi deixar a sala em uma agradável penumbra, acender velas perfumadas, abrir um vinho também perfumado e tomá-lo em taça de cristal. Era uma festa privada, sem mobília e sem tristeza. Eu e minha amada solidão! 

O ar quente e seco irritava, abri a janela de vidro que pega todo o cômodo. Uma musiquinha... Não me lembro qual, mas era algo do tipo flamenco ou coisa que o valha, um Paco de Lucia de leve, uma guitarra. Tambores. Deitei no colchão em posição transversal. De saia. Completamente inocente. Sim, por que os homens não entendem que uma mulher veste saia às vezes simplesmente porque está calor, mas este é um outro assunto.

Naquele momento (que momento lindo!) senti-me inebriar. Olhei para a taça, e achei muito bonita a cor bordô que dava sede no cristal. Os tambores... Durante um tempo fechei os olhos, e permaneci assim, com eles fechados. Viver era bom, pensei. Com o cotovelo no chão, uma das mãos sustentava a cabeça, enquanto a outra pousava suavemente por cima de minha perna dobrada. Os tambores tornaram-se delicados. Senti minha própria mão percorrendo a perna em um S.

Devagar. 

Aí foi que abri os olhos e avistei um de meus vizinhos de sua sacada olhando fixamente para o apê. Minha primeira reação foi sair de seu ângulo imediatamente.  Mas talento é talento, e acho mesmo que há uma certa predestinação na vida da gente. A música era tão boa, o colchão tão macio e a penumbra? Bom, a penumbra era a luz da ribalta.

Fui voltando aos poucos para o palco arrastando-me no chão como uma serpente. Primeiro os pés. Depois as pernas, tronco e quando vi, lá estava eu no mesmo lugar e posição, desta vez ciente que meu espectador estava a me lamber com os olhos. Tive a certeza de que era casado. Engraçado que só fui ver sua mulher no último dia, quando mudou-se deixando um vazio insubstituível. Mas tinha certeza. Inclinando o corpo para a frente, esticava o pescoço. Não liguei. Continuei escutando a música espanhola, estava felicíssima! Adorando aquele homem, que poderia ser qualquer um, tão interessado em me observar. Adorando ser observada! Ele acendeu um cigarro, e dobrava-se ainda mais na janela. 

Sentei com os joelhos dobrados como se pousasse para um quadro. Ele sorvia o cigarro devagar, atento, e se tivesse cinqüenta olhos, estaria olhando com os cinqüenta.
Mas...e se fizesse algum sinal? Meu Deus, se fizesse algum sinal iria estragar tudo! Meu fingir que não sabia, seu fingir que eu não sabia. Um frio subiu a espinha, e eu morrendo de medo coloquei-me ainda mais naturalmente.

Mas ele não fez sinal algum. Sabia jogar. Conhecia-me. Aos poucos tornou-se um profundo conhecedor de meus hábitos e só saía de seu posto quando eu finalmente cansava e apagava as luzes. A distância entre um bloco e outro é perfeita: nem muito perto, nem longe. 
Passou a aparecer todos os dias sempre no mesmo horário, e mesmo depois que o cigarro acabava, lá estava meu vouyer.

Passei a me produzir. Nada curto, imagine. Camisola preta longa, estirava-me no sofá que agora mobiliava a sala, esperando a hora em que ele, religiosamente, apareceria. Dava uma mexidinha nas pernas para a saia de seda subir, e ela ia subindo, e quando chegava nas coxas eu parava e ficava assim, durante um longo tempo. Levantava cuidadosamente, em movimentos graciosos. Sim, porque nessa história de exibicionismo à distância os movimentos são importantíssimos. Nada brusco ou desajeitado. Tem que dar uma reboladinha, sem exagerar, uma ajeitadinha no decote. Tudo, é claro, olhando só de soslaio para seu observador atento.

Aí descobri que meu amigo voyeur era até bonito, o que na verdade nem importava mais. E pedólatra. Isso eu descobri por acaso, quando um dia antes de ir para a balada calcei sandálias de tirinhas, e sandália a gente tem que calçar assim, devagarinho. Inclinar o corpo um pouco de ladinho, dar uma olhada para os pés e pernas. Ele enlouquecia! E a partir daí eu sempre calçava as sandálias perto da janela.

Uma vez ele apareceu de cueca. Fiquei meio puta, achei que estava quebrando um código de ética nosso e deixei a luz bem escura, dificultando sua observação. E aquele dia foi perigoso, quase que põe tudo a perder. Afinal, qualquer tentativa de me conhecer mais de perto seria o fim, não iria querer vê-lo nunca mais. E perfeito foi, porque sempre à distância. Sei que mexia com seus nervos, mas sei também que lhe proporcionei momentos deliciosos, noites felizes ao lado da mulher que nunca aparecia na janela.

Peguei o costume de observar o interior dos apartamentos depois disso, e o dele era bem peculiar: uma bandeira dos Estados Unidos, medalhões de guerra, algo na parede que acho que eram fotos. Sofá sem cor determinada. Não dava para imaginar o que o cara era, com o que trabalhava. Só sei que usava cuecas brancas e que desenvolveu em mim, maravilhosamente, a deliciosa vontade de ser observada. Um devaneio.

Deixei de lado as cortinas, elas já não me servem para nada. Quem vem me visitar estranha um pouco a princípio, depois acostuma. O exibicionismo é contagiante!

Este foi o começo. Tenho várias outras histórias desta mini sacada, mas vou pesquisando sobre a arte e contando em doses homeopáticas. Talvez montar uma associação, pois sei que não sou a única a observar e ser observada diariamente. E exibida.



Escrito por Mlle Monique às 06h28
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